terça-feira, 7 de dezembro de 2010

É cedo, amor

Há cerca de oito anos estive passeando por algumas cidades da Holanda. Perdoe-me se alguém se ofender, mas não gostei de nenhuma. De modo especial, Amsterdã, e de modo mais especial a chamada zona da luz vermelha.
Nessa zona, mulheres expunham seus corpos em cubículos de vidro, a fim de atrair o olhar e a fraqueza dos transeuntes. Estes, do lado de fora, riam, faziam gozações baratas. Ou deviam entrar e usar do favor oferecido, mas não sei exatamente em que bases.
O que mais me chocou não foi bem isso; afinal, sou de um país onde o turismo sexual corre a céu aberto, a preços, imagino, mais favoráveis.
Meu constrangimento foi que, naquele momento, badalavam os sinos de uma igreja, anunciando a hora do serviço religioso. Os sinos ficaram dobrando por muitos e muitos minutos – e o pior é que eu não conseguia ver a igreja de onde o som promanava --, contrastando de maneira gritante com a cena dos cafajestes se divertindo com aquelas infelizes nas vitrines da vida.
Reparem que estamos diante de dois convites. Os dos sinos, barulhentos, os das mulheres, visuais. Mas é obvio que não é essa a única ou principal diferença. Os sinos chamam para a participação em uma experiência sagrada, e as facilidades da carne atraem para um congresso profano, e põe profano nisso.
Qual a diferença entre um e outro? É que ambos não tem a mesma natureza, são de realidades diferentes, sem solução de continuidade. O sacro é algo que não pertence ao mundo e as suas leis, e não se submete ao entendimento racional pleno. Ele existe a título de manifestação – que o historiador Mircea Eliade chama de “hierofania” -, por intermédio de fenômenos, acontecimentos, objetos e até pessoas, que revelam algo que não se confunde com suas constituições imediatas mas se transmudam em possibilidades sobrenaturais, teológicas ou morais.

Para o homem profano, o sino de uma igreja faz barulho e irrita. Para o sagrado, a prostituição, como naquela musica do Cartola, é um abismo cavado com os próprios pés.



(Promotor de Justiça: Ivaldo Lemos Júnior)

2 comentários:

Lets disse...

É como dizem por aí, para alguns tudo o que é bom faz mal, engorda ou é proibido!
Antigamente todo mundo se reunia para ir à missa no Domingo: jovens, adultos, crianças. Hoje vejo amigas minhas usando a Igreja (Católica e Evangélica) como desculpa pros pais para ficar com o namorado escondido. Para a grande maioria religão não existe mais. É só uma máscara pra eganar todo mundo, até nós mesmos, do que REALMENTE somos por dentro!
Passar a imagem do bom samaritano que, na maioria das vezes, está só do lado de fora!

Lucas Esteves disse...

Olá!

Primeiramente, mto obrigado pelas felicitações :-)

Gostei mto do texto, do contrastee!
Sabe, tenho mta vontade de viajar pelo mundo, mas a Holanda não está nos meus planos, nunca me atraiu :-)

Enfim, a religião - infelizemente - na maioria das vezes é usada como MAIS UM tipo de máscara social...

Beijos querida!